RECEBENDO UMA CRIANÇA COM
SD EM SUA ESCOLA


Josiane Mayr Bibas
Maria Izabel Valente
AprendizDown/Curitiba

 


Iniciar um ano letivo traz sempre uma ampla gama de sentimentos. Famílias vêm com suas expectativas e valores. Crianças curiosas, inseguras, desafiadoras chegam com seus lápis e cadernos reluzentes. A professora entra na sala cheia de idéias e energia, ávida em conhecer seus novos alunos, estabelecer os primeiros contatos: que bom seria se todos fossem obedientes e interessados... Que bom seria se todos chegassem no horário, se todos se comportassem bem, se quisessem ir ao banheiro ao mesmo tempo. Que maravilha seria se todos ouvissem igual, entendessem igual, interpretassem igual, aprendessem igual. Se todos aprendessem a ler e escrever no mês de Maio, se entendessem a diferença entre côncavo e convexo no mesmo dia, se compreendessem os efeitos do aquecimento global em uma só aula, se todos resolvessem equações algébricas sem dificuldades.

Que maravilha seria... Será que seria mesmo? Seria mesmo tão bom ter diante de si 20 ou 30 seres humanos iguais, que aprendessem do mesmo jeito e ao mesmo tempo? Mais do que improvável, seria chato!

É na diversidade que se aprende, do inesperado é que nascem as idéias, do desequilíbrio é que se faz a transformação. A sala de aula é o local onde se encontram diferentes crianças, vindas de diferentes famílias, cada uma com sua história e seus valores. Querer fazer desse universo uma massa homogênea seria um grande desperdício: quantos pequenos mundos estarão orbitando naquele espaço, construindo e ampliando suas trajetórias reciprocamente nesta convivência?

E o que dizer então do professor que, conhecendo seu pequeno e novo universo, seus alunos do ano letivo que se inicia, vê que entre eles há uma criança com Síndrome de Down?
Receio? Ansiedade? Tranqüilidade? Indiferença? Desafio?

Vamos analisar cada um destes sentimentos: o professor que sente receio diante daquele aluno tão diferente (será mesmo?) dos colegas, provavelmente ainda não percebeu que todas as crianças são diferentes umas das outras, e que cada aluno merece um ensino personalizado. Por algum tempo se pensou que inclusão seria receber um aluno com deficiência e procurar torna-lo igual aos seus colegas. Hoje sabemos que incluir significa exatamente o contrário: o aluno é diferente e todos os seus colegas também o são. Ou seja, todos os alunos são diferentes! O professor, diante de um aluno com SD, pode ficar receoso devido ao desconhecimento do tema e aos preconceitos adquiridos em formações acadêmicas que ainda não previam o respeito à diversidade. Este professor, além de rever o modo como ensina, terá a oportunidade de rever seus conceitos e adaptar-se internamente para incluir. Preparar-se para receber esse aluno é preparar-se para crescer. É ter a coragem para abrir-se para o desconhecido - quando enfrentamos situações novas, buscamos e exercitamos todas as nossas possibilidades e recursos internos, muitas vezes insuspeitados.

A ansiedade, um sentimento natural quando o ano começa com uma nova classe de alunos, e também natural no professor que conhece uma criança que inicialmente parece fugir dos padrões, pode ser positiva ou negativa. A ansiedade positiva o leva à busca de informações, instiga sua curiosidade e exercita sua criatividade. A ansiedade negativa congela, impede atitudes, traz consigo a tendência a produzir, estimular e se dedicar menos, reduzindo expectativas para evitar frustrações. Esta ansiedade se atenua à medida que o professor percebe que não precisa saber tudo, dar conta de tudo, resolver tudo, à medida que vê os pais e terapeutas como aliados, e passa a acreditar em suas próprias capacidades, bem como nas do seu aluno. Reconhecer seus sentimentos em relação à inclusão e procurar orientação, ajuda e informações, conhecer outras experiências conversando com outras professoras, com a família e os profissionais envolvidos com a criança é uma das formas de realizar um bom trabalho e superar o receio inicial.

A tranqüilidade estará presente no professor que encara este aluno como mais um, naquele que segue uma abordagem individualizada de ensino, que tem informações atualizadas sobre a Síndrome, ou que simplesmente acredita que todas as crianças, devidamente orientadas e mediadas, aprendem. É esse o sentimento poderoso na inclusão: acreditar. Acreditar que, como professor, pode dar o máximo de si para ensinar, e que seu aluno, com ou sem deficiência, estará dando o seu máximo também.

A indiferença talvez seja o sentimento que traz mais riscos à aprendizagem do aluno. O professor que encarar seus alunos de modo indiferente e superficial, colocar-se em um papel passivo na inclusão da criança com qualquer tipo de dificuldade, ou que optar em não enfrentar ou reconhecer a situação de aprendizagem de seu aluno, terá poucas chances de sucesso. O professor que assume esta postura em relação à aprendizagem de qualquer aluno deve reconsiderar suas escolhas.

Ensinar é sempre um desafio. Mesmo o professor que se amedrontou inicialmente diante do aluno com SD, que em um primeiro momento pensou em fugir da situação e que poderia ter optado por um ano inteiro de "você faz de conta que aprende e eu faço de conta que ensino", pode afinal perceber que o aluno com SD (ou com mau comportamento, baixa visão, surdez, paralisia cerebral,...) é capaz de aprender desde que ele exerça seu papel de educador em sua plenitude.

E o que significa, afinal, receber um aluno com SD em sua sala?
Significa, antes de tudo, outro aluno, mais um aluno. A Síndrome de Down se caracteriza por alguns sinais físicos que fazem com que pessoas com a Síndrome sejam parecidas entre si, o que pode levar a posteriores generalizações. Porém, crianças com SD são muitos diferentes entre si, com variados níveis de funcionamento cognitivo, lingüístico, emocional e social. Portanto seu aluno com SD vai se beneficiar com uma avaliação acurada e detalhada para que se possa estabelecer o que ele já sabe, suas competências e suas necessidades (bom mesmo seria se essa avaliação pudesse ser feita com todos os alunos!). Neste momento, passa pela mente do professor o seu dia cheio de atividades, 20 crianças solicitando sua atenção, atividades a preparar e tarefas a corrigir, e um pensamento inevitável: "Como vou arranjar tempo para fazer uma avaliação detalhada??"

Ela é perfeitamente possível, se abranger um parecer dos pais do aluno, laudos de desenvolvimento dos terapeutas que eventualmente o acompanham, dos professores e/ou escola do ano anterior, além de uma observação inicial feita pela própria professora, buscando traçar preferencialmente o conhecimento que o aluno já traz, suas habilidades e talentos, e os canais mais eficientes para se alcançar sua aprendizagem. Uma avaliação que pretenda o levantamento de competências que mostram caminhos, e não apenas das dificuldades que parecem representar grandes obstáculos.

Tendo em mãos estas informações vindas de diferentes fontes, estabelecendo uma rede de apoio com pessoas de dentro e de fora da escola, será possível delinear os caminhos a seguir (abordagem), as metas a atingir (conteúdos) e as ferramentas a utilizar (estratégias), da mesma forma que se pré-estabelecem para todos os alunos.

Mas o grande truque da inclusão é não se fixar no pré-estabelecido. É claro que ensinar a uma turma sem uma direção pretendida seria submergir no caos da liberalidade exagerada, mas incluir (ou melhor, ensinar a todos) significa estar aberto a mudanças, a revisões de percurso, à busca de novos recursos, à criação ou resgate de novas estratégias e materiais, a admitir que preconceitos e rotas pré-determinadas podem sub ou superestimar rendimentos e funcionamentos.

Deixar que as coisas aconteçam no seu tempo, sem descuidar ou adotar atitude passiva, permite que a criança se sinta segura e confiante e dessa forma possa se mostrar. É importante explorar a fase inicial do ano letivo, estabelecendo uma relação positiva e saudável que auxiliará no enfrentamento de novas situações, sejam elas de conquista ou de dificuldades encontradas. Uma relação baseada em sentimentos firmes de confiança e credibilidade permite a experimentação, o acerto e erro e promove aprendizagem.

Saber desta criança, conhecer sobre a síndrome, sobre o histórico escolar e de vida é sem dúvida importante, mas acreditar, sem deixar de ser realista, nas possibilidades da inclusão é o que vai permitir que essa seja uma história bem sucedida. O que faz muita diferença é a autorização que o professor se dá de ensinar a esse aluno, de acreditar nele sem medo de se frustrar como mestre, de permitir que se expresse e aja de acordo com o que consegue e pode, evoluindo sempre. A espontaneidade nas atitudes, no jeito de lidar e responder a esta criança de forma positiva serve como combustível para despertar o desejo e a curiosidade de aprender. Escutar a criança, dar espaço para que se expresse e aprenda, vivencie e pratique é caminho de sucesso no processo ensino-aprendizagem.

Desde o princípio, uma meta precisa estar focada: a autonomia. É nessa direção que se quer caminhar, chegando a ela com bagagem máxima ou com os mínimos instrumentos necessários. Como para todos os alunos, o professor deve ter em mente não apenas transmitir conteúdos formais, mas sim conteúdos de vida, pré-requisitos para uma autonomia real. Estimular a criança a pensar, perceber e analisar o que está acontecendo a sua volta, levantar possibilidades de resolução de problemas e de escolhas, buscar novas alternativas. A criança que se desenvolve dessa maneira apresentará maior facilidade na assimilação de novos conteúdos e manifestação daquilo que sabe.

E o seu aluno vai precisar de adaptações curriculares? Vão ser necessárias adequações de estratégias? Ele vai acompanhar seus colegas? Não há como saber antes de começar a ensinar e a observar sua aprendizagem. O importante é não iniciar com baixa expectativa, esquartejando conteúdos, supondo um limite de aprendizagem que apenas o tempo e o cotidiano saberão definir. Deixe que seu aluno o surpreenda!

Lembram da conversa de como seria bom se todos os alunos fossem iguais?
Já vimos que não seria tão bom assim, afinal. Bom mesmo seria se pudéssemos saber como cada aluno aprende melhor, e nos adaptássemos a estas informações, respeitando seus tempos e estilos de aprendizagem. Bom mesmo seria se o aluno que aprendesse melhor através de estímulos visuais, tivesse este canal priorizado; que aquele que tem tempo de concentração curto tivesse acesso a variadas atividades abordando um mesmo conteúdo; se o que tem dificuldades de memória fosse estimulado através de lembretes e bilhetes. Isto tudo não só seria bom, como é perfeitamente possível. Basta conhecer seu aluno e acreditar que ele pode aprender, reconhecendo e reforçando o que já demonstrou dominar e, partindo desse sucesso, apresentar novas etapas e novos conhecimentos a serem adquiridos. Basta também estar consciente que a inclusão admite dúvidas, uma vez que é processo em desenvolvimento, desde que acompanhadas de humildade para ir em busca de respostas.

Não existe nada mais simples e verdadeiro do que dizer que a melhor maneira de receber o aluno com SD é recebê-lo de braços e coração abertos, permitir-se olhar aquela criança ou jovem além da síndrome e das eventuais dificuldades que possa trazer. Acreditar nas possibilidades. Se a escola focar suas expectativas e estratégias apenas nas dificuldades do aluno com SD, logo se verá frustrada e desmotivada, pois a defasagem pode acontecer efetivamente. Mas se o foco estiver em suas habilidades e em uma visão competencial da aprendizagem, maior será o resultado alcançado pelo professor, pelo aluno que parecia tão diferente e por seus colegas que certamente também terão seu ensino positivamente contaminado por este modo inclusivo de ver o jeito de aprender de cada um.


 


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