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Que
maravilha seria... Será que seria mesmo? Seria mesmo tão
bom ter diante de si 20 ou 30 seres humanos iguais, que aprendessem do
mesmo jeito e ao mesmo tempo? Mais do que improvável, seria chato! E
o que dizer então do professor que, conhecendo seu pequeno e novo
universo, seus alunos do ano letivo que se inicia, vê que entre
eles há uma criança com Síndrome de Down? A ansiedade, um sentimento natural quando o ano começa com uma nova classe de alunos, e também natural no professor que conhece uma criança que inicialmente parece fugir dos padrões, pode ser positiva ou negativa. A ansiedade positiva o leva à busca de informações, instiga sua curiosidade e exercita sua criatividade. A ansiedade negativa congela, impede atitudes, traz consigo a tendência a produzir, estimular e se dedicar menos, reduzindo expectativas para evitar frustrações. Esta ansiedade se atenua à medida que o professor percebe que não precisa saber tudo, dar conta de tudo, resolver tudo, à medida que vê os pais e terapeutas como aliados, e passa a acreditar em suas próprias capacidades, bem como nas do seu aluno. Reconhecer seus sentimentos em relação à inclusão e procurar orientação, ajuda e informações, conhecer outras experiências conversando com outras professoras, com a família e os profissionais envolvidos com a criança é uma das formas de realizar um bom trabalho e superar o receio inicial. A tranqüilidade estará presente no professor que encara este aluno como mais um, naquele que segue uma abordagem individualizada de ensino, que tem informações atualizadas sobre a Síndrome, ou que simplesmente acredita que todas as crianças, devidamente orientadas e mediadas, aprendem. É esse o sentimento poderoso na inclusão: acreditar. Acreditar que, como professor, pode dar o máximo de si para ensinar, e que seu aluno, com ou sem deficiência, estará dando o seu máximo também. A indiferença talvez seja o sentimento que traz mais riscos à aprendizagem do aluno. O professor que encarar seus alunos de modo indiferente e superficial, colocar-se em um papel passivo na inclusão da criança com qualquer tipo de dificuldade, ou que optar em não enfrentar ou reconhecer a situação de aprendizagem de seu aluno, terá poucas chances de sucesso. O professor que assume esta postura em relação à aprendizagem de qualquer aluno deve reconsiderar suas escolhas. Ensinar é sempre um desafio. Mesmo o professor que se amedrontou inicialmente diante do aluno com SD, que em um primeiro momento pensou em fugir da situação e que poderia ter optado por um ano inteiro de "você faz de conta que aprende e eu faço de conta que ensino", pode afinal perceber que o aluno com SD (ou com mau comportamento, baixa visão, surdez, paralisia cerebral,...) é capaz de aprender desde que ele exerça seu papel de educador em sua plenitude. E
o que significa, afinal, receber um aluno com SD em sua sala? Ela é perfeitamente possível, se abranger um parecer dos pais do aluno, laudos de desenvolvimento dos terapeutas que eventualmente o acompanham, dos professores e/ou escola do ano anterior, além de uma observação inicial feita pela própria professora, buscando traçar preferencialmente o conhecimento que o aluno já traz, suas habilidades e talentos, e os canais mais eficientes para se alcançar sua aprendizagem. Uma avaliação que pretenda o levantamento de competências que mostram caminhos, e não apenas das dificuldades que parecem representar grandes obstáculos. Tendo
em mãos estas informações vindas de diferentes fontes,
estabelecendo uma rede de apoio com pessoas de dentro e de fora da escola,
será possível delinear os caminhos a seguir (abordagem),
as metas a atingir (conteúdos) e as ferramentas a utilizar (estratégias),
da mesma forma que se pré-estabelecem para todos os alunos. Deixar que as coisas aconteçam no seu tempo, sem descuidar ou adotar atitude passiva, permite que a criança se sinta segura e confiante e dessa forma possa se mostrar. É importante explorar a fase inicial do ano letivo, estabelecendo uma relação positiva e saudável que auxiliará no enfrentamento de novas situações, sejam elas de conquista ou de dificuldades encontradas. Uma relação baseada em sentimentos firmes de confiança e credibilidade permite a experimentação, o acerto e erro e promove aprendizagem. Saber desta criança, conhecer sobre a síndrome, sobre o histórico escolar e de vida é sem dúvida importante, mas acreditar, sem deixar de ser realista, nas possibilidades da inclusão é o que vai permitir que essa seja uma história bem sucedida. O que faz muita diferença é a autorização que o professor se dá de ensinar a esse aluno, de acreditar nele sem medo de se frustrar como mestre, de permitir que se expresse e aja de acordo com o que consegue e pode, evoluindo sempre. A espontaneidade nas atitudes, no jeito de lidar e responder a esta criança de forma positiva serve como combustível para despertar o desejo e a curiosidade de aprender. Escutar a criança, dar espaço para que se expresse e aprenda, vivencie e pratique é caminho de sucesso no processo ensino-aprendizagem. Desde o princípio, uma meta precisa estar focada: a autonomia. É nessa direção que se quer caminhar, chegando a ela com bagagem máxima ou com os mínimos instrumentos necessários. Como para todos os alunos, o professor deve ter em mente não apenas transmitir conteúdos formais, mas sim conteúdos de vida, pré-requisitos para uma autonomia real. Estimular a criança a pensar, perceber e analisar o que está acontecendo a sua volta, levantar possibilidades de resolução de problemas e de escolhas, buscar novas alternativas. A criança que se desenvolve dessa maneira apresentará maior facilidade na assimilação de novos conteúdos e manifestação daquilo que sabe. E o seu aluno vai precisar de adaptações curriculares? Vão ser necessárias adequações de estratégias? Ele vai acompanhar seus colegas? Não há como saber antes de começar a ensinar e a observar sua aprendizagem. O importante é não iniciar com baixa expectativa, esquartejando conteúdos, supondo um limite de aprendizagem que apenas o tempo e o cotidiano saberão definir. Deixe que seu aluno o surpreenda! Lembram
da conversa de como seria bom se todos os alunos fossem iguais? Não existe nada mais simples e verdadeiro do que dizer que a melhor maneira de receber o aluno com SD é recebê-lo de braços e coração abertos, permitir-se olhar aquela criança ou jovem além da síndrome e das eventuais dificuldades que possa trazer. Acreditar nas possibilidades. Se a escola focar suas expectativas e estratégias apenas nas dificuldades do aluno com SD, logo se verá frustrada e desmotivada, pois a defasagem pode acontecer efetivamente. Mas se o foco estiver em suas habilidades e em uma visão competencial da aprendizagem, maior será o resultado alcançado pelo professor, pelo aluno que parecia tão diferente e por seus colegas que certamente também terão seu ensino positivamente contaminado por este modo inclusivo de ver o jeito de aprender de cada um. |