COMO OS PAIS PODEM AJUDAR NA APRENDIZAGEM DE SEUS FILHOS?
Grupo AprendizDown

Josiane Mayr Bibas
Maria Izabel Valente

Coordenadoras AprendizDown/Curitiba

A inclusão escolar requer compromisso.
Não apenas da escola, mas também dos pais da criança que acreditam que a escola é para todos. À medida que o processo da inclusão caminha, percebemos que melhor está a criança que, além do apoio de professores e profissionais, também recebe apoio para sua aprendizagem em casa, de seus familiares.

Pais têm um tempo maior para metabolizar a chegada em suas vidas de um filho com alguma deficiência, mais tempo para se reorganizarem e irem à luta. O tempo de uma professora é outro, é um tempo mais rápido, mais urgente, com mais exigências e com início e fim pré-determinados. Muitas vezes, aquele pode ser seu primeiro aluno com SD, e ela pode se sentir insegura. O convívio com crianças com alguma deficiência provoca uma saudável revisão de valores. É a oportunidade para pais e professores reverem seus conceitos de "normalidade" e poderem aceitar novos formatos de aprendizagem e competências, diferentes demonstrações de esforço e novos critérios de sucesso. Aprender, para a criança com SD, exige empenho, repetição e dedicação e este seu tempo precisa ser levado em conta. A ajuda dos pais é bem-vinda, pois eles podem trazer informações preciosas sobre os interesses, habilidades, preferências e ritmos de seu filho. Pais atentos podem perceber e, junto com a escola, direcionar talentos, em uma perspectiva de futuro no caminho da profissionalização e autonomia.

A escolha da escola é fundamental. Os pais devem compartilhar os mesmos valores, acreditar no método de aprendizagem proposto e sentir que seu filho é bem-vindo. No início do processo inclusivo, familiares se resignavam a levar seus filhos às escolas que os "aceitassem". Este panorama mudou, e hoje a definição do lugar onde a criança vai estudar passa pelos mesmos critérios usados para todas as crianças: além da metodologia, são considerados a experiência, a disponibilidade, a localização, a estrutura, o custo. O importante é sentir que a escola está sendo adequada ao seu filho, e ter em mente que quando os resultados não são positivos e as adaptações não ocorrem ou não surtem efeito, é hora de rever a escolha. Mudar não implica em fracasso, seja da escola, seja da criança; flexibilidade é fundamental nas transformações.

Pais, irmãos, avós, devem ver a si mesmos como parceiros dos professores, sendo a casa o lugar onde se despertam e consolidam aprendizagens. A família pode transmitir um importante modelo de amor e interesse pelos livros, valorização da comunicação escrita, seja através da leitura de jornais, revistas, ou pelo uso de bilhetes e o hábito de contar histórias. Pode demonstrar que aprender é importante, que o que aprendemos nos permite trabalhar, e que trabalhar nos proporciona as coisas que queremos. É em casa também que a criança vai receber as importantes noções do certo e errado, de convivência social, de valores. Não cabe à escola definir estes padrões, saber como comportar-se deve ser conceito adquirido no quotidiano familiar, cumprimentar as pessoas, respeitar os mais velhos, arrumar suas coisas, são parte da educação que a criança adquire em casa para poder praticar na escola.

Dedicar um tempo para brincar com a criança. Parece simples, mas sabemos que nem sempre cabe na vida agitada de hoje. Precisamos resgatar em nossa memória o quanto brincadeiras como quebra-cabeças, adivinhações, jogos de encaixes ou cubos, faz-de-conta com carrinhos e bonecas, contribuíram na construção de nosso conhecimento. Brincar com os pais é uma experiência deliciosa e necessária. Desligar a TV ajuda, faz com que se busquem alternativas de lazer, que se usem jogos, que se converse e compartilhe as histórias do dia e da vida. Mesmo nas longas permanências no carro, entre uma terapia e outra, entre a casa e a escola, pais têm excelentes oportunidades para inventar jogos de palavras, charadas, refletir sobre o que a criança está aprendendo na escola.

Quando os pais estão bem sintonizados com a escola, podem se antecipar e criar em casa um ambiente motivador, uma base para o que vai ser aprendido em classe. Ao estar informados, por exemplo, que a criança vai trabalhar "insetos" na semana seguinte na escola, podem se antecipar procurando insetos pelo jardim ou parques, ler livros sobre o assunto com ela, ver documentários ou desenhos animados que abordem o tema. Assim, quando a criança vir o conteúdo na escola, já estará familiarizada. Desse modo, surge para ela uma oportunidade de participar mais ativamente, o que reforça sua auto-estima: "eu também tenho o que falar, eu também aprendo". Passar pelo concreto auxilia na aquisição da informação, e a escola nem sempre tem condições de oferecer experiências de contato real com o objeto de estudo, pelas próprias contingências de um ensino que caminha para a abstração, à medida que o aluno cresce. No processo de aprendizagem do conteúdo na escola, a criança receberá as informações, através do concreto quando necessário e possível, ou através de alguns dos muitos recursos que uma professora dispõe para transmitir o assunto em questão (aulas expositivas, atividades lúdicas, recursos áudio-visuais, etc.). Feito isso, ela terá sua aprendizagem sobre aquele conteúdo avaliada. Neste momento, a família volta a desempenhar outro importante papel: o de dar uma função e contextualizar aquela aprendizagem. Por exemplo, a criança aprendeu a somar, foi avaliada e... acabou? Não, esta é a hora de aplicar o conceito soma em casa, na feira, nos carrinhos que ganhou da avó, nas flores que vamos colocar na sala e no quarto... A transcendência de um novo conhecimento e a aplicação do que é aprendido dá sentido à aprendizagem e promove sua sedimentação.
Então, recapitulando: os pais participam inicialmente despertando o interesse e propiciando experiências com o objeto ou assunto que a escola vai abordar e a criança vai para a escola motivada, enriquecida de informações e com a segurança de quem sabe do que se está falando; a escola faz a sua parte, vai ensinar valendo-se de estratégias adequadas para cada aluno e vai avaliar o que (e preferencialmente, como) a criança aprendeu; a família vai consolidar o aprendido através do seu uso e aplicação no cotidiano da criança.

As tarefas levadas para casa são importantes oportunidades para reforçar conteúdos e para que a família seja envolvida e participe das aquisições. Mas participar da lição de casa não significa necessariamente "fazer junto" (ou "por ela"). Estar colado à criança na hora das tarefas, estressa, confunde papéis, desgasta a relação e cria uma situação de dependência. Lição de casa serve: a) para reforçar o que está sendo dado na escola; b) para que a família possa acompanhar o que está sendo ensinado e contextualizar o tema no dia-a-dia da criança; c) para mostrar, tanto para a escola quanto aos pais como a criança está lidando com a aprendizagem, o que está entendendo e como consegue desempenhar sobre aquele conteúdo; d) para desenvolver na criança o senso da responsabilidade e de cumprir acordos e combinados. Os pais podem aproveitar a lição de casa para mostrar ao filho o quanto estão interessados em sua vida escolar, podem dar idéias para a realização das tarefas e então possibilitar espaço para o desenvolvimento de um aspecto importantíssimo para todas as crianças: sua capacidade de solucionar problemas e sua autonomia. É evidente a importância dos pais na aprendizagem de seus filhos, qualquer filho. Mas procurem não confundir os papeis: família é diferente de escola, pais diferentes de professores. A aprendizagem que se estimula no lar deve se caracterizar pela informalidade, pelo afeto, pelo lúdico. Em casa não há nota, não há erro, o que existe são pessoas interessadas em que seu filho aprenda.
Errar, acertar, buscar outros caminhos, pesquisar, são habilidades que a criança pode desenvolver nas tarefas escolares e nas experiências em família, no seu cotidiano. E são estas habilidades adquiridas no dia-a-dia e nas atividades acadêmicas que vão dar condições à criança de superar dificuldades e encontrar seu modo de fazer.

Outro papel de grande importância dos pais está relacionado à conscientização da criança sobre sua síndrome. A criança com necessidades educativas especiais incluída em classe regular está sujeita a situações de conflito. Cabe aos pais explicarem, interpretarem com ela as reações dos outros. Quando ela não sabe porque as coisas são como são, fica mais difícil se manter na tentativa, aceitar limitações e superar obstáculos. O sentimento de acomodação ou revolta acaba sendo a válvula de escape para tentar acalmar ou responder aos questionamentos a que ela se expõe diariamente. Saber sobre si mesma vai facilitar para a criança a aceitação de suas limitações e atividades adaptadas.

A postura dos pais quanto à aprendizagem que esperam para seu filho, tem valor determinante na atuação da escola. Se os pais se contentam com a socialização, a escola acaba por se satisfazer com isto também. Se a família quer demais, acima do que a criança pode oferecer, frustra e inibe a escola, que vai lidar com expectativas exageradas e difíceis de atingir (jamais impossíveis, pois nunca sabemos até onde cada um pode ir). Portanto, reuniões constantes entre pais e escola são necessárias para a discussão das demandas familiares, os campos de competência observados na escola e no lar (que podem ser bastante diferentes entre si), e os constantes reajustes nas expectativas de ambos. A partir de nossa experiência que está completando dois anos no grupo AprendizDown, percebemos que a escola quer sim a participação dos pais, e está aberta para formar esta parceria que a faz mais motivada e segura quanto à inclusão. Verificamos também que os pais que estão próximos e sintonizados com o ensino que seu filho tem recebido, obtêm mais respostas da escola. Por exemplo, comparecem mais às reuniões de professoras que o AprendizDown promove mensalmente, aquelas professoras que são convidadas diretamente pela mãe de seu aluno.

Os pais às vezes atribuem apenas à escola as dificuldades de aprendizagem de seu filho, culpam a professora pela demora nas aquisições. Os professores, por sua vez, dizem que não estão preparados para incluir, ou que os pais delegam exclusivamente a eles a responsabilidade de ensinar. A verdade é que os resultados são a soma do compromisso dos pais, da escola, da equipe terapêutica e da própria criança. A inclusão não deve ser guerra, mas deve ser desafio. Não deve ser uma conspiração, mas sim um intercâmbio de idéias. Não deve ser conflito, mas sim cumplicidade. E seu prêmio vai ser a aprendizagem real da criança diferente, como cada criança é, mas respeitada em suas características, com seu espaço reconhecido e aproveitado para que seja sempre ampliado, exercendo seu direito de estar com todos e sendo encarada como mais um aluno. Apenas isso.


 

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