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O ALUNO COM SD É "CAFÉ-COM-LEITE"? Josiane Mayr
Bibas |
Lembra daquele menino que era desajeitado, mas insistia em jogar futebol? O professor colocava o garoto em um time e lá ficava ele, correndo e esperando que alguém lhe passasse a bola. E ninguém passava. Ele estava no jogo, mas não estava jogando. Ele era "café-com-leite". Ser "café-com-leite" tem muitos efeitos sobre a criança ou jovem. O primeiro é a percepção da condescendência e baixa expectativa: "apesar de saber que você não é capaz, eu deixo você participar", o que traz como conseqüências imediatas a baixa auto-estima e a desmotivação. O mesmo pode acontecer com o aluno com alguma deficiência em classe regular, quando seu professor o vê como uma criança que está ali, mas não conseguirá aprender. Este educador adota esta postura geralmente com a intenção de proteger ou evitar frustrações para seu aluno por estar mais focado em suas dificuldades que em suas competências. Mas a criança que percebe que está sendo tratada de maneira desproporcional a sua capacidade, esta sim se frustra, se entristece, se desinteressa. Ela estará no jogo, mas não estará jogando. Para que o aluno com SD deixe de ser ou não se torne um aluno "café-com-leite", para que ele seja um aluno que, além de estar na escola, participa e aprende, há que se refletir sobre um conceito básico: compromisso. Um compromisso que deve partir da escola, da família e do próprio aluno. Se qualquer um destes elementos encarar a aprendizagem de forma leviana e indiferente, não há como se alcançar sucesso. Chega de procurar culpas e desculpas para as dificuldades de aprendizagem de crianças com SD. A família culpa a escola, a escola culpa o professor, o professor culpa a família e todos têm como desculpa a SD, e desperdiçam tempo, energia e afeto que poderiam investir na aprendizagem da criança, baseados em suas possibilidades. Muitas
vezes, as famílias depositam na escola e nos terapeutas a função
de ensinar, de impor regras sociais e valores, quando deveriam participar
efetivamente tanto na construção realista das expectativas,
quanto na construção da aprendizagem de seu filho. Mostrar
à criança o quanto aprender é importante, valorizar
as aquisições e dar funcionalidade aos conteúdos
trabalhados na escola, demonstra a ela que sua aprendizagem está
sendo encarada (e aguardada) de forma séria e coerente. A
criança é fruto do meio em que vive, dos estímulos
que lhe são oferecidos, dos modelos que recebe, e vai dar respostas
correspondentes ao que se espera dela. A escola tem papel fundamental na formação de um indivíduo autônomo, tenha SD ou não. Juntamente com a família daquele aluno, a escola estará formando um cidadão com direitos e deveres. E, como tal, como um aluno que tem o direito da aprender, mas que também tem o dever de se empenhar para isso, é que o aluno com SD deve ser encarado. Os princípios da pedagogia atual dizem que todas as pessoas podem ser inteligentes, porque a inteligência não é inata, mas se constrói. Conhecemos hoje também o conceito de inteligências múltiplas, que demonstra que cada um tem seu canal de acesso e de expressão de habilidades. Ou seja, todos aprendem. A inteligência é ativa, móvel, modificável pela ação externa, e não determinada apenas por fatores orgânicos, genéticos ou hereditários. Pessoas com SD, mesmo apresentando algum tipo de atraso cognitivo, desenvolvem suas inteligências, quando devidamente mediados por educadores, familiares e terapeutas. E é nisso que o professor de vê investir: em acreditar nas capacidades do aluno em aprender e em suas capacidades como professor, de fazer parte desse processo, da construção desse caminho de aprendizagem. . Muitas
vezes, por subestimar ou para poupar um aluno que acredita não
ser capaz de aprender, o professor oferece conteúdos muito aquém
de suas capacidades ou totalmente diferentes daqueles abordados pelos
colegas, caindo inevitavelmente na desmotivação. Como em casa, a visão de "café-com-leite" que a escola atribui ao aluno se revela de diferentes formas: permitindo ao aluno com SD atitudes que não permitiria aos outros (sair da sala, ficar deitado no chão, mexer no material dos colegas, não cumprir com combinados, ir inúmeras vezes ao banheiro, etc.), não mandar tarefas para casa, não cobrar normas ou atividades solicitadas a todos, oferecer atividades muito fáceis, dar um jeitinho ou aceitar desempenhos muito baixos. Essas atitudes de desconsideração desmerecem seu potencial e funcionam como freio, um congelamento no movimento da criança em atuar de forma ativa em sua própria vida. Mais uma vez, o aluno percebe a postura condescendente dos que o cercam, e responde no mesmo nível de expectativa, entendendo que ter a SD lhe autoriza a tudo e não lhe exige aprendizagem. Ter um filho ou aluno "café-com-leite" resulta em economia na expectativa e no investimento, e numa conseqüente resposta econômica por parte da criança, ou seja, ninguém faz tudo o que pode ou precisa ser Feito - nem ela, nem seus pais, nem seus educadores. Encarar o aluno com SD de maneira séria significa que o aluno vai dar o máximo de si, enquanto a escola e o educador estarão dando o máximo deles também. Ninguém estará fazendo de conta, nem que aprende, nem que ensina. A criança com SD merece e pode estar no jogo, e jogar.
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