ATÉ ONDE PODEMOS IR.

Maria Izabel Valente

 


Limite deve ser sempre entendido como um meio e não como um fim . O fim é a conquista de uma forma adequada de relacionamento, de convivência em grupo e de relacionar-se consigo mesmo. O maior objetivo dos pais é dar ao filho condições de crescimento e evolução tornando-o capaz de ir atrás de seus ideais, de seus objetivos, conquistando sua autonomia. A maneira como a criança vai fazer isso, as estratégias que vai escolher, dependerão dos valores morais, estilo de vida e realidade de cada criança, de cada família.

Os pais representam para a criança, desde muito pequena, o que existe de mais importante e correto no mundo e, sendo assim, eles vão servir de modelo, norteadores das condutas de seus filhos. Ser o modelo talvez seja o aspecto do processo de educar mais difícil de ser colocado em prática, porém sem sombra de dúvida é o mais eficiente, e se resume na seguinte postura :eu faço dessa forma e te ensino assim porque realmente acredito que esse seja o melhor. Isso não coloca pais e filhos no mesmo nível e é claro que existem diferenças que devem ser respeitadas e que são determinadas por uma questão de hierarquia: pais podem coisas que aos filhos ainda não são permitidas e também podem decidir quebrar regras baseados no bom senso, na capacidade de análise e escolha, posição conquistada pela vivência, situações que serão perfeitamente compreendidas e aceitas quando existe diálogo, regras claras e limites bem definidos.

O limite protege, reflete interesse, amor, dá segurança, porque diz até onde a criança pode ir, como pode explorar e experimentar as diferentes situações de vida de forma tranqüila, segura e obtendo maiores ganhos. A criança precisa desse espaço de ação, de seu campo de atuação definidos para se desenvolver, vivenciar situações práticas e concretas. É preciso permitir que ela aja por si mesma, respeitando suas possibilidades. O agir leva à autonomia que por sua vez vem de mãos dadas com a capacidade de fazer escolhas. Para se fazer escolhas é preciso ter informação e conhecimento, é preciso experimentar e ao mesmo tempo refletir, comparar e decidir, ser levado a pensar sobre o que faz. Tudo isso se obtém através do diálogo, da argumentação, da comunicação em suas mais variadas formas.

Essa comunicação é mais abrangente do que a fala, pode ocorrer através de gestos, do tom de voz, do olhar, do toque, da postura corporal, através da manifestação de sentimentos, do interesse, da disponibilidade. Isto significa que desde muito cedo a criança compreende e assimila os sinais, as orientações, os ensinamentos dos pais. O resultado da comunicação dos valores e dos limites em qualquer dessas formas é uma organização do pensamento, diminuição da impulsividade, planejamento da ação, referenciais para o comportamento. Falar, combinar, analisar e reconhecer o que está ocorrendo, situa a criança e permite maior compreensão e aceitação dos resultados de suas ações.

O conceito de conseqüência como a possibilidade de cada um assumir suas escolhas com consciência dos possíveis resultados, é o efeito real da colocação de limites. Essa postura elimina a estratégia de uso de chantagem quando o poder de decisão está no outro e não em quem executa o ato. Vivenciar a conseqüência de um ato traz um resultado mais efetivo, porém mais demorado de se obter, enquanto que a chantagem traz resultados imediatos, porém passageiros. O hábito de combinar coisas previamente, associado ao hábito de conversar sobre as situações, é uma das melhores estratégias, porque permite que a criança já saiba o que vai acontecer e assuma esse risco por opção, e porque permite aos pais mais tranqüilidade e menos culpa quando tiverem que intervir. O importante é que pai e mãe devem estar em harmonia quanto às regras estabelecidas e às atitudes a serem tomadas. As divergências entre opiniões de pai e mãe podem ser discutidas em outro momento. Outros familiares ou cuidadores envolvidos na educação da criança, além da postura da escola quanto à disciplina, devem estar dentro de um campo de coerência, para que a criança possa entender claramente em que abrangência de limites está operando.

O tempo corrido das famílias, o acúmulo de tarefas, a agenda cheia da criança, muitas vezes levam os pais a querer aproveitar o tempo disponível de um jeito “solto”, sem restrições, na busca de uma compensação. Mas, é preciso ter em mente que quando a criança precisa lidar com o “não”, com o limite, ela exercita muito mais sua capacidade de raciocínio, de busca de novas estratégias, de argumentação, de aceitação e tolerância, de substituição e flexibilidade, da percepção da impossibilidade de ganho permanente, o que melhora significativamente sua relação com o mundo e principalmente com ela mesma.

Outro aspecto importante é o de que a criança com SD pode ter uma tendência a não estabelecer limites definitivos, os quais ela pode encarar de maneira bem flexível. Ela vibra mais, sofre mais, tenta muito mais ou muito menos, corre sem freio, repete muitas vezes o que lhe dá prazer, tem mais dificuldade em mudar de estratégia, de compreender sinais, indiretas e orientações superficiais. Com tudo isso, necessita de muito mais apoio, orientação, paciência e coerência para seguir respeitando e atendendo o que foi determinado.

A compreensão e aceitação da SD por parte da família são fundamentais para poder agir sem culpa. A visualização do resultado futuro das atitudes de agora, permite que os pais tomem atitudes que beneficiarão seus filhos, e para isso é preciso acreditar que as posturas que adotam hoje são as melhores para atingirem os objetivos educacionais a que se propõem, de acordo com seus valores familiares.

O limite é dinâmico e evolutivo e deve ser ampliado na forma de conquista e não de disputa ou de guerra. Na medida em que cresce, a criança amplia o seu campo de ação, as ofertas são maiores e a responsabilidade na escolha aumenta na mesma proporção, sendo necessária então uma consciência maior de suas possibilidades e atitudes e do resultado destas. Quando a criança apresenta um comprometimento cognitivo como na SD, toda essa compreensão se torna mais difícil, com mais passos, necessita de mais repetição, porém é tão possível quanto para qualquer criança e, às vezes, até mais importante do que para as crianças ditas normais, pois quando pensamos em Inclusão e Autonomia, devemos investir na adequação do comportamento, para que a criança seja aceita socialmente, abrindo portas para a inclusão familiar, escolar e profissional.


 

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