O que se espera da relação com uma criança é
que aconteça de forma espontânea, carinhosa e prazerosa.
Porém, muitas vezes nos deparamos com situações críticas
de agressividade, birras, mudanças de humor repentinas e aquele
aluno tão amável passa a se comportar de modo totalmente
inesperado. Lidar com essas situações não é
confortável, desencadeia no adulto processos de raiva, culpa, frustração
ou sentimento de inadequação e incompetência (afinal,
como pais ou profissionais, deveríamos saber como agir). A tendência
é coibir aquele comportamento rapidamente, sem, no entanto, perceber
ou atender às causas reais que o desencadearam, tendo assim uma
resposta a curto prazo e pouco eficiente, pois logo nova situação
se apresenta, reforçada pelas respostas que a criança teve
no primeiro momento. É preciso estar atento às causas, aos
sinais e principalmente aos resultados obtidos. Quando tais comportamentos
acontecem com uma criança com necessidades educativas especiais,
surgem ainda questionamentos sobre a permanência da criança
na sala, seu real aproveitamento e os resultados diante de tantas dificuldades.
Atitudes de firmeza ao invés de rigidez, afeto ao invés
de rejeição são aliados da professora, que deve considerar
outros dois fatores: saber dissociar o ato da criança e não
receber o comportamento inadequado como um ataque pessoal.
A aprendizagem de todas as crianças envolve questões de
comportamento, afeto e motivação. Não é possível
promover a ativação das estruturas cognitivas sem a motivação
afetiva: a vontade de aprender é condição para a
aprendizagem. A criança desmotivada não busca, não
se movimenta na direção do conhecimento. O envolvimento
afetivo acolhe e apóia a motivação, a superação
do erro e a valorização do esforço, do caminho, sem
objetivar apenas resultados. O comportamento, por sua vez, é o
modo que a criança encontra para declarar como se sente, refletir
(positiva ou negativamente) de que forma as modificações
operam sobre ela, além de ser um instrumento eficiente para se
expressar, estabelecer contato e ser atendida.
Crianças
com SD ainda são vistas através de estereótipos de
serem dóceis, adaptáveis, afetuosas. Na verdade, elas são
tão diferentes entre si no que se refere à personalidade
e temperamento quanto crianças sem a síndrome. A criança
com SD, em situação de aprendizagem, pode ser hiperativa,
desafiadora, passiva, ansiosa, agressiva, melancólica, insegura,
desorganizada. E pode também ser interessada, produtiva, curiosa,
positiva, participativa e sistemática. Ela pode apresentar diferentes
comportamentos diante de diferentes conteúdos, nos diversos contextos
e nas variadas abordagens. O que, em essência, acontece a cada um
de nós.
Queremos
analisar aqui de que forma o comportamento de uma criança pode
interferir em sua aprendizagem, e de que modo a dificuldade em aprender
pode desencadear alterações no comportamento.
Comportamentos nascem de sentimentos. Sentimentos positivos promovem e
facilitam a aprendizagem. As emoções positivas fazem acreditar
e realizar. Atividades adequadas à criança, que envolvam
prazer e sucesso e levem à aprendizagem, à aquisição
de conhecimentos firmados pelo peso da emoção, garantem
caráter definitivo ao aprendido. Já sentimentos negativos
inibem o armazenamento de informações e geram associações
e reações negativas. A criança que tiver dificuldades
em aprender determinados conteúdos, seja porque são difíceis,
ou sem significado, ou desinteressantes, pode demonstrar esta percepção
de diversas maneiras:
- fugas da situação de aprendizagem;
- recusa em prestar atenção e responder;
- gritar, fazer birras, deitar-se no chão;
- destruir ou esconder material de colegas;
- passividade;
- agressividade, entre outras.
Todos estes são comportamentos de evitação da situação
vivenciada, e podem ser usados pela criança que não encontrou
outro modo para expressar sua dificuldade, sua insegurança ou seu
tédio. O primeiro passo para a superação das dificuldades
comportamentais é mostrar à criança que existem maneiras
mais eficazes e menos desgastantes para alcançar objetivos. Ajudar
a criança a identificar e nomear suas emoções permite
que ela as expresse apropriadamente. Não há necessidade
de esconder o material do colega diante de uma tarefa difícil,
quando pode comunicar esta dificuldade à professora e obter a modificação
esperada sem o conflito. Ela vai ser levada a perceber, pela professora
atenta que detectou a causa do comportamento inadequado, que pode conseguir
o que deseja substituindo aquele por um comportamento aceitável
e também eficaz. Comunicar sentimentos através de palavras,
gestos ou códigos pré-estabelecidos, com calma e tranqüilidade,
tem efeito e não transtorna o ambiente.
Esta mesma professora atenta e interessada na aprendizagem de seu aluno
estará apta a perceber que fatores externos poderão estar
contribuindo para disfunções de comportamento. Por fatores
externos, entendemos erros no plano educativo, na escolha da abordagem
de ensino que podem não levar a criança e seu funcionamento
em conta. Para que um aluno aprenda, é possível elaborar
um programa que vá de encontro às suas necessidades educativas.
Este programa deveria partir de uma avaliação do aluno (e
do próprio programa, de maneira contínua), para que se estabelecessem
objetivos e metas, e estratégias adequadas, funcionais e com significado
para alcançá-los. Se este é o processo que está
sendo oferecido para a criança com SD e ainda assim ela não
aprende, o programa precisa ser revisto. Se a criança falha em
um programa que foi desenvolvido só para ela, algo está
errado com o programa.
Além
da qualidade do ensino que a criança está recebendo, outros
aspectos podem interferir em seu comportamento. A situação
imediata, algo no seu entorno, pode estar desencadeando comportamentos
negativos; se o contexto ou relações familiares estão
sofrendo algum tipo de desequilíbrio; mudanças (mesmo que
para melhor) de rotina ou em seu ambiente; se a criança está
com algum problema de saúde ou desconforto físico; se os
valores, parâmetros de certo e errado são coerentes nas diversas
situações de seu cotidiano (em casa, na escola, na casa
dos avós, etc.).
Comportamentos
têm causa e têm função. Eles são provocados
por diferentes motivos: além dos fatores citados anteriormente,
experiências anteriores negativas com o conteúdo, ou a auto-percepção
da dificuldade, da diferença, da deficiência, ou o sentimento
de exclusão, a necessidade de fazer parte do grupo, podem levar
a comportamentos inadequados. Devem ser levados em conta ainda o comprometimento
intelectual, as dificuldades na linguagem receptiva e expressiva, a auto-censura
e noção de limites rebaixados, e as dificuldades visuais
ou auditivas que podem estar presentes em crianças com SD.
E comportamentos têm função, eles desencadeiam reações
nas pessoas ou modificações nas situações
indesejadas que podem levar a criança a repetir a atitude: um comportamento
negativo como gritos, choro, fuga ou agressividade pode fazer com que
ela receba atenção, ou que a atividade ou contato indesejado
sejam interrompidos, ou que receba uma tarefa mais prazerosa. Ao atingir
algum destes resultados, a criança percebe que seu comportamento
aparentemente inadequado funciona, e tende a usá-lo outras vezes.
Repetimos:
comportamento tem causa e tem função. Para modificar o comportamento
de seu aluno, de modo que não mais comprometa sua aprendizagem,
a professora (e a família, os terapeutas, pois comportamentos inadequados
não são exclusividade do ambiente escolar) precisa analisar
as possíveis causas e buscar suprimi-las. O material diferente
do dos colegas transtorna a criança? Há como usar o mesmo
material, basta ser criativo. A criança não vê sentido
naquela aprendizagem? Vamos retornar ao básico, envolver os pais,
dar funcionalidade ao conteúdo antes de partir para sua formalização.
A criança tem experiências negativas anteriores com aquele
conteúdo? É possível criar atividades que mostrem
que o tema pode ser interessante e que as tarefas podem ser agradáveis
e realizadas com sucesso. Frustração desestimula, é
mais fácil não fazer a atividade do que tentar e não
conseguir. Sucesso é importante, prepara a criança a encarar
o passo seguinte com mais segurança, à medida que ela mesma
percebe a sensação agradável produzida pelo próprio
progresso.
E
como lidar com a função, o efeito que o comportamento da
criança provoca em seu ambiente? O meio mais eficiente para corrigir
comportamentos é o de mostrar calmamente à criança
seu comportamento inadequado e suas conseqüências (relação
que ela pode não fazer sozinha). É importante trabalhar
com o conceito de limites e regras saindo do simples "certo ou errado"
e passando a vê-los como fatores determinantes para definir espaços
de ação, liberdade de expressão e conduta. Quando
ela percebe que não atinge mais seus objetivos através daquelas
atitudes negativas, vai buscar novas formas de agir ou de enfrentar a
situação. E o resultado é seu crescimento. Chantagens,
castigos, ameaças ou ignorar o comportamento, não geram
bons efeitos. Estabelecer acordos, trabalhar noções de conseqüência
e definir espaços e possibilidades de ação com atitudes
e modelos firmes, confiando no que se faz, traz resultados muito mais
positivos.
A
criança com Síndrome de Down e sua família recebem,
desde o início de sua vida, orientações sobre estimular,
desenvolver, investir... A criança acaba correndo o risco de se
ver sobrecarregada de ofertas, oportunidades, terapias e suas inevitáveis
cobranças. A criança com SD, como qualquer outra criança,
precisa desempenhar um papel seu em seu crescimento, estar em um ambiente
que não a considere apenas como um recipiente passivo no qual se
inserem conteúdos e habilidades. Ela precisa percorrer o seu caminho
como protagonista, alguém que além de responder, questiona;
além de obedecer, solicita; alguém que além de reagir,
propõe.
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