COMPORTAMENTO: UMA FORMA DE EXPRESSÃO
Caminho ou obstáculo na aprendizagem?


Josiane Mayr Bibas
Maria Izabel Valente
Coordenadoras Grupo AprendizDown



O que se espera da relação com uma criança é que aconteça de forma espontânea, carinhosa e prazerosa. Porém, muitas vezes nos deparamos com situações críticas de agressividade, birras, mudanças de humor repentinas e aquele aluno tão amável passa a se comportar de modo totalmente inesperado. Lidar com essas situações não é confortável, desencadeia no adulto processos de raiva, culpa, frustração ou sentimento de inadequação e incompetência (afinal, como pais ou profissionais, deveríamos saber como agir). A tendência é coibir aquele comportamento rapidamente, sem, no entanto, perceber ou atender às causas reais que o desencadearam, tendo assim uma resposta a curto prazo e pouco eficiente, pois logo nova situação se apresenta, reforçada pelas respostas que a criança teve no primeiro momento. É preciso estar atento às causas, aos sinais e principalmente aos resultados obtidos. Quando tais comportamentos acontecem com uma criança com necessidades educativas especiais, surgem ainda questionamentos sobre a permanência da criança na sala, seu real aproveitamento e os resultados diante de tantas dificuldades. Atitudes de firmeza ao invés de rigidez, afeto ao invés de rejeição são aliados da professora, que deve considerar outros dois fatores: saber dissociar o ato da criança e não receber o comportamento inadequado como um ataque pessoal.

A aprendizagem de todas as crianças envolve questões de comportamento, afeto e motivação. Não é possível promover a ativação das estruturas cognitivas sem a motivação afetiva: a vontade de aprender é condição para a aprendizagem. A criança desmotivada não busca, não se movimenta na direção do conhecimento. O envolvimento afetivo acolhe e apóia a motivação, a superação do erro e a valorização do esforço, do caminho, sem objetivar apenas resultados. O comportamento, por sua vez, é o modo que a criança encontra para declarar como se sente, refletir (positiva ou negativamente) de que forma as modificações operam sobre ela, além de ser um instrumento eficiente para se expressar, estabelecer contato e ser atendida.

Crianças com SD ainda são vistas através de estereótipos de serem dóceis, adaptáveis, afetuosas. Na verdade, elas são tão diferentes entre si no que se refere à personalidade e temperamento quanto crianças sem a síndrome. A criança com SD, em situação de aprendizagem, pode ser hiperativa, desafiadora, passiva, ansiosa, agressiva, melancólica, insegura, desorganizada. E pode também ser interessada, produtiva, curiosa, positiva, participativa e sistemática. Ela pode apresentar diferentes comportamentos diante de diferentes conteúdos, nos diversos contextos e nas variadas abordagens. O que, em essência, acontece a cada um de nós.

Queremos analisar aqui de que forma o comportamento de uma criança pode interferir em sua aprendizagem, e de que modo a dificuldade em aprender pode desencadear alterações no comportamento.

Comportamentos nascem de sentimentos. Sentimentos positivos promovem e facilitam a aprendizagem. As emoções positivas fazem acreditar e realizar. Atividades adequadas à criança, que envolvam prazer e sucesso e levem à aprendizagem, à aquisição de conhecimentos firmados pelo peso da emoção, garantem caráter definitivo ao aprendido. Já sentimentos negativos inibem o armazenamento de informações e geram associações e reações negativas. A criança que tiver dificuldades em aprender determinados conteúdos, seja porque são difíceis, ou sem significado, ou desinteressantes, pode demonstrar esta percepção de diversas maneiras:
- fugas da situação de aprendizagem;
- recusa em prestar atenção e responder;
- gritar, fazer birras, deitar-se no chão;
- destruir ou esconder material de colegas;
- passividade;
- agressividade, entre outras.
Todos estes são comportamentos de evitação da situação vivenciada, e podem ser usados pela criança que não encontrou outro modo para expressar sua dificuldade, sua insegurança ou seu tédio. O primeiro passo para a superação das dificuldades comportamentais é mostrar à criança que existem maneiras mais eficazes e menos desgastantes para alcançar objetivos. Ajudar a criança a identificar e nomear suas emoções permite que ela as expresse apropriadamente. Não há necessidade de esconder o material do colega diante de uma tarefa difícil, quando pode comunicar esta dificuldade à professora e obter a modificação esperada sem o conflito. Ela vai ser levada a perceber, pela professora atenta que detectou a causa do comportamento inadequado, que pode conseguir o que deseja substituindo aquele por um comportamento aceitável e também eficaz. Comunicar sentimentos através de palavras, gestos ou códigos pré-estabelecidos, com calma e tranqüilidade, tem efeito e não transtorna o ambiente.

Esta mesma professora atenta e interessada na aprendizagem de seu aluno estará apta a perceber que fatores externos poderão estar contribuindo para disfunções de comportamento. Por fatores externos, entendemos erros no plano educativo, na escolha da abordagem de ensino que podem não levar a criança e seu funcionamento em conta. Para que um aluno aprenda, é possível elaborar um programa que vá de encontro às suas necessidades educativas. Este programa deveria partir de uma avaliação do aluno (e do próprio programa, de maneira contínua), para que se estabelecessem objetivos e metas, e estratégias adequadas, funcionais e com significado para alcançá-los. Se este é o processo que está sendo oferecido para a criança com SD e ainda assim ela não aprende, o programa precisa ser revisto. Se a criança falha em um programa que foi desenvolvido só para ela, algo está errado com o programa.

Além da qualidade do ensino que a criança está recebendo, outros aspectos podem interferir em seu comportamento. A situação imediata, algo no seu entorno, pode estar desencadeando comportamentos negativos; se o contexto ou relações familiares estão sofrendo algum tipo de desequilíbrio; mudanças (mesmo que para melhor) de rotina ou em seu ambiente; se a criança está com algum problema de saúde ou desconforto físico; se os valores, parâmetros de certo e errado são coerentes nas diversas situações de seu cotidiano (em casa, na escola, na casa dos avós, etc.).

Comportamentos têm causa e têm função. Eles são provocados por diferentes motivos: além dos fatores citados anteriormente, experiências anteriores negativas com o conteúdo, ou a auto-percepção da dificuldade, da diferença, da deficiência, ou o sentimento de exclusão, a necessidade de fazer parte do grupo, podem levar a comportamentos inadequados. Devem ser levados em conta ainda o comprometimento intelectual, as dificuldades na linguagem receptiva e expressiva, a auto-censura e noção de limites rebaixados, e as dificuldades visuais ou auditivas que podem estar presentes em crianças com SD.
E comportamentos têm função, eles desencadeiam reações nas pessoas ou modificações nas situações indesejadas que podem levar a criança a repetir a atitude: um comportamento negativo como gritos, choro, fuga ou agressividade pode fazer com que ela receba atenção, ou que a atividade ou contato indesejado sejam interrompidos, ou que receba uma tarefa mais prazerosa. Ao atingir algum destes resultados, a criança percebe que seu comportamento aparentemente inadequado funciona, e tende a usá-lo outras vezes.

Repetimos: comportamento tem causa e tem função. Para modificar o comportamento de seu aluno, de modo que não mais comprometa sua aprendizagem, a professora (e a família, os terapeutas, pois comportamentos inadequados não são exclusividade do ambiente escolar) precisa analisar as possíveis causas e buscar suprimi-las. O material diferente do dos colegas transtorna a criança? Há como usar o mesmo material, basta ser criativo. A criança não vê sentido naquela aprendizagem? Vamos retornar ao básico, envolver os pais, dar funcionalidade ao conteúdo antes de partir para sua formalização. A criança tem experiências negativas anteriores com aquele conteúdo? É possível criar atividades que mostrem que o tema pode ser interessante e que as tarefas podem ser agradáveis e realizadas com sucesso. Frustração desestimula, é mais fácil não fazer a atividade do que tentar e não conseguir. Sucesso é importante, prepara a criança a encarar o passo seguinte com mais segurança, à medida que ela mesma percebe a sensação agradável produzida pelo próprio progresso.

E como lidar com a função, o efeito que o comportamento da criança provoca em seu ambiente? O meio mais eficiente para corrigir comportamentos é o de mostrar calmamente à criança seu comportamento inadequado e suas conseqüências (relação que ela pode não fazer sozinha). É importante trabalhar com o conceito de limites e regras saindo do simples "certo ou errado" e passando a vê-los como fatores determinantes para definir espaços de ação, liberdade de expressão e conduta. Quando ela percebe que não atinge mais seus objetivos através daquelas atitudes negativas, vai buscar novas formas de agir ou de enfrentar a situação. E o resultado é seu crescimento. Chantagens, castigos, ameaças ou ignorar o comportamento, não geram bons efeitos. Estabelecer acordos, trabalhar noções de conseqüência e definir espaços e possibilidades de ação com atitudes e modelos firmes, confiando no que se faz, traz resultados muito mais positivos.

A criança com Síndrome de Down e sua família recebem, desde o início de sua vida, orientações sobre estimular, desenvolver, investir... A criança acaba correndo o risco de se ver sobrecarregada de ofertas, oportunidades, terapias e suas inevitáveis cobranças. A criança com SD, como qualquer outra criança, precisa desempenhar um papel seu em seu crescimento, estar em um ambiente que não a considere apenas como um recipiente passivo no qual se inserem conteúdos e habilidades. Ela precisa percorrer o seu caminho como protagonista, alguém que além de responder, questiona; além de obedecer, solicita; alguém que além de reagir, propõe.



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