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PARA ONDE NOS LEVA A INCLUSÃO? Josiane Mayr
Bibas |
Quem trabalha hoje na inclusão, faz parte de um movimento que está derrubando barreiras, transpondo obstáculos, panfletando uma nova forma de educar, construindo uma outra estrada. Como diz Clarice Lispector, "mudando, mas mudando devagar. O importante não é a velocidade, mas saber a direção". Saber aonde queremos ou podemos chegar é motivação importante para qualquer processo ou ação, pois nos permite uma organização prévia e a escolha de estratégias e recursos para atingir objetivos pré-definidos. Trabalhando e acreditando
na inclusão, sabemos que direção é essa,
sabemos que queremos, ao transformar o olhar da educação,
ampliar o respeito às diferenças e o conceito de cidadania.
Sabemos que, ao incluir uma criança com SD ou outras deficiências
em classes comuns, estamos melhorando como seres humanos, como professores,
crescendo como escolas, proporcionando a todos os alunos uma convivência
natural na diversidade. Também já estamos conscientes de que incluir é possível, que todos os alunos podem aprender se o professor conhecer suas capacidades e acreditar em sua competência e, partindo deste conhecimento, planejar objetivos, estratégias e recursos para sua aprendizagem. Sabemos, além disso, que a inclusão está crescendo. O Censo Escolar 2006, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), contabilizou 375.488 matrículas de alunos com deficiência na Educação Básica e um crescimento de 76,4% no atendimento em classes regulares. Agora, precisamos saber mais algumas coisas: para onde nos leva essa inclusão? Assistimos a uma grande evolução em relação à Síndrome de Down em todo o mundo. Evoluções na área da saúde que têm como conseqüência o aumento da expectativa e da qualidade de vida e evoluções na área da estimulação precoce e da educação preparam as crianças e jovens com SD para um futuro que ainda não podemos prever. Como serão essas pessoas que estão hoje nas escolas regulares, o que se espera delas, o que elas estão conquistando, para onde elas estão indo? Como é o futuro dos alunos que passaram a vida escolar incluídos no ensino regular? E qual o papel da família e do professor nesse percurso e nesse resultado? A primeira conquista é para a própria criança em seu convívio familiar. A inclusão trouxe a possibilidade de que o acolhimento e aceitação que ocorrem na casa da criança com SD se expandam para a comunidade em que vive, com uma visão mais ampla, mais justa e mais respeitosa. Outra conquista importante, certamente, é a do lugar que pertence a cada um: estar com todas as crianças, no universo escolar. Alcançar visibilidade, sair dos guetos ditos protetores que por tanto tempo as velaram. Estar nas escolas, nas ruas, na vida real, traz atrelada a possibilidade de fazer parte, de chegar a algum lugar. O horizonte de expectativas se abre, dos pais e da própria pessoa que se percebe como "mais um", alguém que também quer crescer, trabalhar, namorar, uma pessoa que amplia suas potencialidades, o sentimento da sua própria dignidade, sua auto-estima e sua contribuição para o crescimento e desenvolvimento da sociedade. E saber todos esses fatos de profunda relevância, dá sentido à inclusão. Dá sentido à própria pessoa que se percebe acreditada e passa a se reconhecer e acreditar em si mesma. Dá sentido ao empenho diário do professor que percebe que este aluno também está construindo um conhecimento, dentro de suas possibilidades; que é um aluno que, como os outros, tem habilidades a serem reveladas, valorizadas e desenvolvidas; um aluno que, como seus colegas, tem perspectivas, desejos e planos; e que como cada um de seus amigos, também poderá aprender uma profissão e trabalhar. A escola tem papel fundamental nesse processo de despertar: estará contribuindo para o desenvolvimento de um sujeito que quer alcançar aprendizagens e autonomia. Ser autônomo é identificado, geralmente, como a capacidade de cumprir algumas tarefas e superar algumas fases como, por exemplo: sair da casa da família e ter seu próprio lar, encontrar um trabalho, casar-se e se tornar pais, progredir na carreira, etc. Porém, ser autônomo pode não estar exatamente ligado ao dever de superar mecanicamente essas tarefas, mas sim à possibilidade de viver de maneira consciente e responsável o próprio tempo, capazes de pedir ajuda, mas sem depender totalmente dos outros. (Carlo Lepri) Segundo os resultados do Censo 2000 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), cerca de 14,5% da população brasileira têm alguma deficiência física ou mental, ou seja, trata-se de uma população de 24,5 milhões de pessoas. Dentro deste grupo, estima-se que haja, entre os 170 milhões de brasileiros, cerca de 300 mil pessoas que nasceram com a Síndrome de Down. Alguns estudos realizados em países da Europa mostraram que, nos últimos 10 anos, a média de vida da pessoa com deficiência mental aumentou em 20 anos. Em 1910, o bebê com Síndrome de Down vivia em média 9 anos. Já em 1947 essa média era de 12 anos, alcançando 18 anos em 1949 e 25 anos em 1983. Atualmente, a maioria das pessoas que nascem com Síndrome de Down atinge em média os 56 anos de vida. Este aumento da expectativa de vida das pessoas com SD e sua melhor evolução começam a determinar conseqüências concretas no estilo e plano de vida das famílias e na organização dos serviços. O aumento da idade média está relacionado ao surgimento de novas necessidades, gerando direito à instrução, ao trabalho, a uma vida social e afetiva, a espaços para o lazer. O universo das pessoas com Síndrome de Down torna-se cada vez mais um universo de pessoas "adultas", realizadas e realizadoras. E é este o foco que, como pais e educadores, devemos ter em relação às pessoas com SD. Pensar que estamos plantando aqui, para colher mais adiante, como acontece com todas as crianças. As aprendizagens vão acontecendo, em seu ritmo e estilo, mas com um objetivo: alcançar o máximo de aprendizagem e autonomia que aquele filho ou aluno pode atingir. Ouvir o que o jovem tem a dizer, olhar e ver suas potencialidades, investir nos talentos e dar oportunidades, permitir e dar espaço para uma existência ativa e não mais aquela vida passiva em que seus desejos, possibilidades e saberes eram definidos pelos outros. Sabemos agora para onde caminham os jovens que vêm exercendo seu direito de ser, estar e participar. E vai ver que o futuro dos pais e educadores então é esse: ver jovens saindo da escola tendo aprendido o que podiam e precisavam, se profissionalizando e alcançando uma autonomia possível. E saber que fizeram parte disso. Referências
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