ADAPTANDO-SE PARA INCLUIR
Uma visão além do pedagógico

Josiane Mayr Bibas
Maria Izabel Valente
Coordenadoras Grupo AprendizDown



Uma educação para todos em uma sociedade que valorize a diversidade, deve ser o objetivo de cada escola.
A inclusão é uma transformação de bases, de conceitos e aspirações. Segundo Mel Ainscow, a inclusão é um processo que precisa acontecer em três níveis, sendo o primeiro a presença da criança na sala de aula. O segundo é a participação, o aluno estar presente e realmente participando das atividades na escola. O terceiro nível diz respeito à aquisição de conhecimento. Portanto, inclusão significa o aluno estar na escola, participando, aprendendo e desenvolvendo suas potencialidades.

Ter entre seus alunos crianças com Síndrome de Down (SD) ou com outras Necessidades Educativas Especiais (NEEs) representa para a professora a oportunidade de fazer parte desta transformação. Mas também pode gerar ansiedade, questionamentos, dúvidas quanto à capacidade de ensinar o aluno diferente ou até sobre o aproveitamento e a viabilidade da presença daquele aluno em classe regular. O que realmente angustia o professor em relação à situação diferente que se apresenta, é não ter controle sobre o que vai acontecer. O professor muitas vezes reage, fica inseguro. O convívio com supostos "padrões de normalidade" que caracterizaram o ensino acadêmico por tanto tempo, traziam aos professores um referencial para suas expectativas em relação à aprendizagem de seus alunos. As crianças com NEEs tiraram este Norte, esta referência, criando uma situação de desequilíbrio que está fazendo com que escolas e professores revejam os seus conceitos de ensino e aprendizagem.

Para fazer inclusão e adaptação, é preciso repensar basicamente o conceito Educação, seu propósito e sua aplicabilidade, a escola como participante na formação de um indivíduo autônomo e com qualidade de vida. Não é apenas a escola que está incluindo o aluno. Ela também está sendo incluída na vida daquela criança, também passará a fazer parte na responsabilidade de formar um cidadão, juntamente com sua família e comunidade. Assim ocorre também com a adaptação, outro processo de reciprocidade - não apenas a criança precisa se adaptar à escola, mas mais justa e importante é a adaptação da escola e dos professores a cada aluno.

Crianças também se adaptam umas às outras. A cada ano, novas turmas, novos colegas, diferentes vínculos. A adaptação a crianças com NEEs traz aos colegas sem deficiências a possibilidade de desenvolver através da convivência os conceitos de tolerância, respeito, colaboração e superação, desde que vejam esta postura em seus educadores.

Quando falamos de adaptação, estamos nos referindo ao direito que toda criança tem de ter uma aprendizagem personalizada, que respeite seu nível de funcionamento, suas individualidades, suas idéias. Esta personalização deveria acontecer em dois níveis:
na aprendizagem: ninguém consegue construir algo a partir do que não sabe, não conhece. Personalizar a aprendizagem da criança significa definir de onde se está partindo, o que ela já sabe e como aprende, para então poder definir o que ela precisa e o que pode aprender, ou seja, onde se quer chegar. E este prognóstico de aprendizagem precisa ser aberto, ampliável e positivo, fugindo da tendência a subestimar capacidades (tanto no ensinar, quanto no aprender). Assim, a evolução acontece em um processo mais tranqüilo, mais harmonioso, para o aluno e para o professor.
A personalização da aprendizagem vai dizer respeito também ao conceito de auto-determinação : "nada sobre nós sem nós!", a criança como personagem atuante neste processo, o que vai exigir uma revisão constante de caminhos e expectativas. O verdadeiro aprendiz não é aquele que só ouve, compreende, responde e executa. É também aquele que pensa, fala, pergunta, argumenta e propõe. Aprendizagem é isso. E a escola deve estar pronta para transitar nestas duas vias, se quiser formar cidadãos participativos e autônomos.
no ensino: além das adaptações que se fizerem necessárias para que a aprendizagem da criança com SD ocorra do melhor modo possível, seja nas adequações de acesso, de estratégias, de conteúdos ou de avaliação, é importante ainda personalizar a relação professor-aluno. O professor precisa reconhecer seus próprios sentimentos para poder entendê-los e superá-los quando negativos, em um processo de revisão permanente e contínuo para que se encontrem sempre novas possibilidades. Lidar as com limitações de um aluno faz refletir sobre suas próprias, além de estabelecer novas regras e promover a busca de outros caminhos. Questionamentos são necessários, e devem começar com o professor em relação a si mesmo.

O que significa se preparar para incluir?
Conhecer a si mesmo.
Ter mais opções disponíveis para ensinar.
Reorganizar expectativas para o possível.
Caminhar passo a passo.
Olhar de verdade.

Como podemos definir o que é adaptar?
- não eliminar nem diminuir aprendizagens antecipadamente.
- transformar potencial em capacidade.
- rever conteúdos na ótica individualizada.
- um processo de ir e vir.
- não é um processo "formatável", mas flexível, dinâmico, criativo de acordo com o que
cada aluno expressa.
- requer interesse e motivação, particular a cada aluno.
- não é um conceito fechado.
- envolve a prática e pretende a funcionalidade.
- parte do simples e dominado para o novo.
- ter em mente que informação simples e pura não significa necessariamente aquisição
de conhecimento.
- estar atento a dificuldades de comportamento que podem comprometer a
aprendizagem. A adaptação de conteúdos começa pela adaptação de estratégias de
relacionamento, conduta e regras de sala.
- um outro ritmo.
- lançar mão de facilitadores: uso de agenda entre pais e escola, antecipação de
conteúdos, favorecer a relação pais-escola-profissionais, estimular a utilização de
macetes, estratégias mnemônicas, e todo tipo de comunicação.
- adaptar é fazer o máximo dentro do que é possível.

Adaptar significa abrir-se a uma nova mentalidade, percebendo que ao ensinar crianças heterogêneas, com respeito e individualização, tem espaço a criatividade do professor, que com flexibilidade vai priorizar informações, a partir do conhecimento que tiver sobre o aluno e seu funcionamento, buscando alternativas e ocupando o lugar que é seu por escolha: o de ensinar, e a todos.

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