O
universo das pessoas com síndrome de Down torna-se cada vez mais
um universo de pessoas "adultas". É preciso levar este
fato em consideração para não nos encontrarmos despreparados
diante das potencialidades (e das responsabilidades) que essa realidade
nos propõe.
As pessoas com comprometimento intelectual e, em particular, as pessoas
com SD, são hoje mantidas no mundo da infância, muito além
do que é necessário.
Esse processo de infantilização limita suas potencialidades,
o sentimento da sua própria dignidade, sua auto-estima e sua contribuição
para o crescimento e desenvolvimento da sociedade.
Os dados que as pesquisas sobre a expectativa de vida das pessoas Down
nos colocam a disposição são claros.
| ANO |
EXPECTATIVA
DE VIDA |
| 1929 |
9
anos |
| 1947 |
12
- 15 anos |
| 1961 |
18,5
anos |
| 1988 |
50
anos |
| 2002 |
58,6
anos |
É importante registrar que o notável aumento da expectativa
de vida das pessoas com SD começa a determinar conseqüências
concretas no plano do estilo de vida das famílias e da organização
dos serviços.
Uma outra conseqüência do aumento da idade média está
relacionada ao surgimento de novas necessidades das pessoas com SD, isto
é, ao seu direito a uma instrução, a um trabalho,
a uma vida social e afetiva, a espaços para o lazer. O aumento
da idade, enfim, colocou em evidência a insuficiência de serviços
sociais e educativos, nascidos historicamente com a idéia de ajudar
"crianças". Hoje é importante para as pessoas
com SD adultas poder dispor de serviços que poderíamos definir
mais como de "habilitação" do que de reabilitação.
E qual é o papel da família e, mais em geral, da sociedade
na construção da identidade adulta da pessoa com Síndrome
de Down?
O importante é ter em mente: uma pessoa com Síndrome de
Down pode tornar-se "psicologicamente adulta" desde que a família
e a sociedade acreditem que isso seja realizável.
Vamos pensar:
Somos capazes de pensar nas pessoas com SD como pessoas adultas?
Somos capazes de permitir-lhes que se reconheçam adultos nos nossos
olhares e, conseqüentemente, nos nossos comportamentos?
Estamos prontos a imaginar adulta uma criança com SD e fazer com
que essa imagem se concretize com o tempo?
E, enfim, concordamos que vale mais a pena acompanhar as pessoas Down
rumo ao difícil mundo dos adultos do que mantê-las eternamente
no mundo protegido das crianças?
Usando uma metáfora poderíamos dizer que, para as pessoas
com SD, entrar no mundo dos adultos é como ter de abrir uma porta
que precisa de duas chaves. Uma das chaves está nas mãos
deles, mas a outra somos nós que possuímos. Se não
houver nossa autorização, nosso consentimento, nosso encorajamento
convicto, a porta dificilmente poderá ser aberta. Ou, no máximo,
vai se abrir uma fresta, a partir da qual será possível
entrever um mundo que, no entanto, continuará inacessível.
Tomar conhecimento de que somos nós que possuímos uma das
chaves para permitir o acesso a uma identidade psicologicamente adulta
das pessoas Down é o primeiro passo para que isso se torne verdadeiro
na realidade.
A possibilidade de se tornar adulto, nessa perspectiva, não está
condicionada pela categoria da inteligência, mas sim pela qualidade
dos encontros com os outros. Poderíamos dizer simplesmente: "eu
posso me tornar adulto desde que você pense em mim como adulto".
Tudo isso abre novos horizontes para a construção de uma
identidade adulta para as pessoas com síndrome de Down, mas, ao
mesmo tempo, abre novas tarefas educativas e maiores responsabilidades
para todos.
Que conseqüências podem ter essas considerações
em relação às tarefas educativas da família
e aos deveres da sociedade?
Ela tem a ver com a necessidade, por parte dos pais, de ter de se conscientizar
de que, com o passar do tempo, se tornam cada vez menos indispensáveis
na vida dos próprios filhos, descoberta nem sempre agradável
e, de qualquer forma, carregada de ambigüidade.
Essa perda de importância marca sempre uma mudança na vida
psicológica e social dos pais, já que os obriga a reprojetar
o próprio futuro e a encontrar novos objetos nos quais investirem
as próprias energias.
Para pais que têm um filho com comprometimento que "se torna
grande", a redefinição do próprio papel pode
ser muito mais penosa, a ponto de se tornar, quando não foi detalhadamente
programada, impossível.
Às vezes, a idéia de modificar o próprio papel de
pais não é nem mesmo levada em consideração,
a ponto de se obrigar ao papel inatural de "pais vitalícios
de um filho pequeno".
Obstáculos para o crescimento:
Vamos tentar nos perguntar por que a dificuldade em imaginar o próprio
filho adulto e, portanto, em assumir uma posição de "distância
correta" está, freqüentemente, tão presente nas
famílias que têm um filho com comprometimento intelectual.
Podemos tentar identificar alguns dos obstáculos que estão
na base dessa dificuldade para, depois, indicar alguns caminhos de trabalho.
Parece-me que o primeiro aspecto pode estar relacionado com a idéia
de se achar indispensáveis para sempre como pais. Precisamos nos
perguntar como é possível iniciar uma viagem rumo à
maturidade se não experimentarmos os distanciamentos necessários?
Se não se lê nos olhos e no coração do outro
aquele conjunto de sentimentos de adversidade e de confiança que
encorajam a aprendizagem do "conseguir sozinhos"?
Um outro elemento que pesa na dificuldade em reconhecer a maturidade dos
filhos com comprometimento intelectual está ligado à fragilidade
dos seus processos de transição da adolescência.
O benéfico uso da contraposição aos pais que a criança
já utiliza precocemente com os seus "não" para
se afirmar como "eu sou" e que se torna absoluto durante a adolescência,
aparece de forma menor na pessoa com comprometimento. Em muitos casos
o adolescente com síndrome de Down é um "adolescente
sem adolescência", privado, então, de um benéfico
espaço de transição dentro do qual reforçar
seus processos de distanciamento e de autonomia das figuras dos pais.
A pessoa com comprometimento pouco treinada para a autonomia se torna,
por sua vez, "fraca" nas ações de afastamento
dos pais e dificilmente pode contar com um grupo da mesma idade que a
apóie nesse percurso.
Às vezes acontece que, quando essas ações de contra
dependência aparecem, eventualmente de maneira desajeitada, ao invés
de serem reconhecidas e apreciadas como um sinal de crescimento são
reprimidas ou interpretadas como um comportamento "inadequado"
ou "perigoso".
Existe, nos processos de infantilização das pessoas com
comprometimento intelectual, um fator, que eu chamaria de "tranquilização",
que vale tanto para os pais como, mais em geral, para a sociedade.
É, obviamente, muito mais fácil e tranqüilizador para
a família pensar que tem de tratar com uma criança do que
com um adulto. Com as crianças sempre sabemos o que fazer, como
se comportar, enquanto a imagem do "deficiente-adulto" é
pouco tranqüilizadora, já que traz problemas novos e riscos
diante dos quais nem sempre estamos preparados. Vamos pensar, por exemplo,
no tema da sexualidade, na vida afetiva, no trabalho, na vida independente.
Um último obstáculo que limita o acesso a uma identidade
adulta para as pessoas com síndrome de Down deve ser relacionado
diretamente com a organização social e com a sua cultura.
A ausência de papéis sociais no mundo dos adultos para essas
pessoas (a partir dos papéis de trabalho) e, portanto, a ausência
de uma representação social, de uma imagem social da pessoa
com comprometimento adulta, faz com que a sociedade não apóie
a família a imaginar "grande" o próprio filho.
Desafios:
À luz dessas dificuldades, quais são os desafios que se
apresentam às famílias, aos profissionais e à sociedade,
para tornar possível a viagem do senhor Down rumo ao mundo dos
adultos?
Já foi dito várias vezes que apenas restituindo a imagem
de um adulto poderemos permitir que uma pessoa com SD "se sinta"
adulta.
Mas para que essa imagem seja real é necessário que seja
permitido que as pessoas Down também tenham acesso, da maneira
mais normal, natural e verdadeira, aos mesmos papéis sociais de
todos os outros cidadãos. Para dar início a essa mudança
é necessário, porém, ver essas pessoas sob uma nova
luz.
Uma luz que ilumine não apenas os seus déficits, mas, principalmente,
seus recursos e suas capacidades. Não apenas suas necessidades
de dependência, mas, principalmente, as de autonomia.
Nessa perspectiva ser "pessoa" significa ver verdadeiramente
reconhecido o próprio direito/dever de ser inserido no sistema
social "normal", dando, assim, o máximo de "sentido"
à própria aventura humana. Se compartilhamos essa postura,
é preciso, então, reconhecer que será necessário
garantir a uma pessoa Down as mesmas "normalidades" psicológicas,
afetivas e educativas de qualquer outra pessoa.
Em primeiro lugar, a normalidade de Acolhida.
Aceitar, amar, acolher um filho com síndrome de Down para os pais,
no início, não é fácil. Mas justamente por
isso, é necessário que uma família que vive essa
experiência se sinta acolhida e compreendida.
É necessário que a família sinta ao seu lado, profissionais
capazes de demonstrar aliança e confiança e, ao mesmo tempo,
uma sociedade acolhedora, capaz de inclusão social. Porque uma
família acolhida, se sentirá mais forte e capaz, por sua
vez, de acolher e de se demonstrar pronta a transmitir confiança
e a compartilhar com o filho os riscos desse ir rumo ao mundo dos grandes.
Ao lado e dentro da normalidade de acolhida é necessário
garantir à pessoa Down uma normalidade de "imaginário".
O imaginário é a capacidade de sonhar com os próprios
filhos, de saber vê-los projetados no futuro. É, também,
no nosso caso, a capacidade de saber sonhá-los adultos. O imaginário
é um espaço feito de sonhos dentro do qual "antecipar
o desejável" para os próprios filhos. É um grande
presente que os pais dão, já que as crianças podem
se tornar grandes "pegando emprestado os sonhos que os pais sonharam
para elas".
O projeto de vida:
O projeto de vida de uma pessoa com síndrome de Down deve levar
em conta a exigência do equilíbrio entre "o encontro
com os próprios limites" e o direito a legítimos "espaços
de negação" dos mesmos. O que infelizmente ocorre é
que, na ausência de um projeto de vida realista, as pessoas Down
correm o risco de encontrar a dureza de seus limites sem encontrar, ao
mesmo tempo, suas potencialidades.
Todos nós sabemos, até por experiência pessoal, que
se tornar emotivamente e psicologicamente adultos pode ser muito trabalhoso
e que o alcance de um status adulto pode ser considerado por todos um
objetivo apenas ideal.
Ser adulto é identificado, geralmente, com a capacidade de cumprir
algumas tarefas e superar algumas fases como, por exemplo: sair da família,
encontrar um trabalho, casar-se e se tornar pais, progredir na carreira,
ocupar-se dos próprios pais. Porém, ser adulto pode não
estar exatamente ligado ao dever de superar mecanicamente essas tarefas,
mas sim à possibilidade de viver de maneira consciente e responsável
o próprio tempo, capazes de pedir ajuda, mas sem depender totalmente
dos outros.
Hoje
as pessoas com SD propõem um desafio à nossa maturidade
de pessoas adultas: saber imaginar para elas uma "maturidade possível
de maneira realista" ao invés de "uma infância
eterna".
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