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Volta
às entrevistas
BRUNO, PERSISTÊNCIA
Em
2006, perto de completar 18 anos, Bruno começou a considerar a
possibilidade de trabalhar. Participou com outros jovens e seus pais de
uma reunião na Reviver onde se discutia o futuro de pessoas com
SD em uma sociedade que agora precisava deles no mercado de trabalho.
Ao final da reunião, enquanto eu arrumava meu material para ir
embora, levantei os olhos e vi que diante de mim tinha se formado uma
fila de jovens: eles queriam deixar seus nomes e telefones em uma lista
para quando aparecesse um emprego. Os jovens estavam ali, em pé
na minha frente, e seus pais continuavam sentados, observando e refletindo,
olhares receosos sobre aquela atitude de autonomia.
Naquele dia percebemos que os pais é que não estavam preparados
para o mercado de trabalho, não por culpa deles, mas de uma realidade
nova e inesperada para muitos: seus filhos com SD estão se desenvolvendo
muito além das expectativas!
Bruno, o primeiro daquela fila, persistiu, e foi mostrando aos seus pais
o quanto era importante para ele (e coerente com todo o investimento em
inclusão que eles tinham feito durante toda a sua vida) que ele
pudesse trabalhar. Sua autonomia já lhe permitia andar no bairro
sozinho, ir à videolocadora, fazer compras no supermercado perto
de casa. Mas abrir as portas para o Bruno trabalhar... foi uma decisão
muito pensada na família.
O emprego logo apareceu, como empacotador no Carrefour. A entrevista foi
tranqüila e tudo estava acertado. Faltava cortar o cabelo, que na
época chegava aos ombros, para respeitar a política da empresa.
Aí foi a hora de Bruno refletir: seria sua primeira atitude de
funcionário, optar por mudar em nome do trabalho. Pensou, cortou
e começou a trabalhar.
Hoje vemos um Bruno feliz, desempenhando sua função nos
caixas do supermercado: empacotar compras, recolher cestinhas e carrinhos
espalhados. Às vezes quer ir descansar, mas os colegas estão
orientados para não "amolecer" com ele: trabalho é
trabalho. Com o dinheiro que está ganhando, quer comprar um celular
melhor. O supermercado fica longe da sua casa, então pai, mãe
e cunhado se revezam no levar e buscar. Ele não acha ruim, pois
diz ter medo de assalto (afinal, quem não tem?). À noite
estuda em uma escola do ensino regular. Gosta de filmes de ação
e aventura, e de ler livros do Paulo Coelho.
Ele
não gosta de falar sobre a Síndrome de Down, mas admite
ter algumas dificuldades: "eu aceito que as pessoas me ajudem. Mas
também quero que me respeitem".
Bruno
sempre teve muitos sonhos: namoradas, futebol, casa própria, trabalho,
casamento. Do mesmo jeito que sua escolaridade foi se desenvolvendo respeitando
o seu ritmo, assim vão se realizando seus projetos. O trabalho
já está aí, e namoro é seu próximo
objetivo. Com Bruno é assim: um passo após o outro, até
chegar onde quer.
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