Volta às entrevistas

SONHO

Inácia tem 27 anos. Nascida e criada no interior do Paraná, há pouco tempo veio morar com a mãe em Curitiba.

É completamente autônoma em casa, domina bem as prendas domésticas e tem o quarto mais arrumado. Grande companheira da mãe, está sempre disposta a participar de qualquer programa. É a que organiza o despertador, lembra de compromissos agendados e insiste em visitar o irmão casado e o sobrinho. Aprecia poesia e lê sempre que pode, além de escrever as suas próprias. Comunica-se com clareza e adequação.

Quando veio a Curitiba, Inácia tinha um grande sonho: ela queria trabalhar. Mas, por algum motivo (ou por motivos antes óbvios, que o desenvolvimento atual das pessoas com SD está modificando), ela falava desse sonho como algo que habitava o mundo do impossível. Nesse nosso primeiro encontro, quando eu lhe disse que podia tentar uma colocação para ela, vi o olhar mais surpreso e maravilhado da minha vida!

Naquele momento, o sonho virou objetivo: laudos médicos, entrevistas, fotos, documentos, vale-transporte... Levou um tempo, mas valeu a pena.

Inácia, ansiosa com a roupa que iria usar no primeiro dia de trabalho, começou na sua função no Carrefour em final de 2007. Logo, orgulhosa, ganhou seu uniforme. Apaixonada por roupas, teve sorte (ou sensibilidade do empregador?) e trabalha na sessão de confecções, onde é responsável pelo provador: controle da quantidade de roupas que entram e que saem, reposição das peças provadas, recolhimento das roupas que ficam nos caixas. Enquanto estávamos tendo esta conversa no supermercado, presenciei uma situação que demonstra bem sua postura: na porta do provador, há um cartaz onde está escrito "Não é permitido provar a parte debaixo de biquínis nem peças íntimas". Chegou um senhor com seu filho adolescente e um pacote de cuecas e disse que o rapaz ia provar a peça por cima da sua. Inácia, educadamente, respondeu que não era permitido. O senhor em questão imediatamente começou a dizer que aquilo era um absurdo, que não tinha mal nenhum, que onde já se viu... E Inácia: "Senhor, me desculpe, são normas do supermercado. Estou seguindo a orientação que recebi". Firme e adequada.

Inácia trabalha das 9:00 às 17:20 horas, de segunda a sexta-feira. Não falta nunca, e é um exemplo de pontualidade. Vai trabalhar de ônibus e na volta a mãe a aguarda no ponto, para juntas irem para casa. Inácia vai contente, se sentindo importante, simplesmente porque conquistou algo que considerava inatingível, simplesmente porque trabalha.

Josiane Mayr Bibas



 

Eu sou Inácia
Pontes de Morais.

Quero passar para vocês o poder do pensamento positivo, fé em Deus para vencer. Tenho 27 anos e sou Síndrome de Down.

Sofri muitas discriminações, preconceitos de tanta gente, até da minha família, até mesmo do meu pai e do meu irmão.

Meu pai não deixava ficar perto dele. Quando nós saíamos passear, ele me evitava, eu não entendia que era vergonha de mim, mas sempre tive esperança e desejo de trabalhar, estudar, ser alguém na vida, ou mesmo, ser tratada como outras pessoas.

Tenho meu tio Josué que eu amo muito, ele me ajudou e me deu força nas horas das minhas angústias e desapreço do meu pai.

Hoje estou tão feliz porque eu e minha mamãe, que nunca me rejeitou, viemos embora para Curitiba e aqui minha mamãe batalhou até conseguir alguma coisa para me ajudar. Descobrimos a Associação Reviver Down, fui muito bem recebida, me senti tão feliz, me senti gente como outras pessoas, e consegui um serviço e meu sonho está sendo realizado.

Faço um pedido às pessoas normais: Não despreze ninguém porque não é perfeito igual você, pois nós temos vida e sentimentos. Se você estivesse em nosso lugar, como se sentiria?

Deus nos escolheu para sermos assim!



MINHA SOBRINHA INÁCIA

Procuro palavras para descrever sobre essa jóia preciosa chamada INÁCIA, mas elas me fogem e só me embriago lembrando daquele sorriso mais sincero do mundo, daqueles olhinhos brilhando buscando nada mais que um carinho, nada mais que um afago, buscando amor. Fico sempre muito orgulhoso ao despertar esses sentimentos tão verdadeiros, tão deliciosamente belos nessa linda garota, mesmo sabendo que tudo isso, todo esse amor vem de uma transferência de onde esperou tanto e nada teve.

Aliás, teve sim, desprezo, preconceito, discriminação nua e crua durante toda sua vida. Esse apego se dá a um grande vazio que ficou em sua vida, e fui agraciado por receber gratuitamente esse presente tão precioso.

Esse amor incondicional, verdadeiro, puro como de uma criança que só quer carinho. Cada sorriso me traduz uma multidão de palavras, as quais eu não precisava que me fossem ditas (Eu estou aqui, olhe pra mim, também quero o que todos podem ter, também preciso de um beijo, de um afago, que segure na minha mão e me dê segurança, que afague a minha cabeça com verdade, que me beije a face com calor de quem ama, sou gente como todos e preciso que me vejam assim).

Eu acompanhei toda sua trajetória de vida e sei do seu sofrimento, de suas dificuldades, e apenas fiz o que todos deveriam ter feito. Nada mais, nada menos do que ter dado amor. Essa palavrinha mágica que só funciona se for verdade. Amor não se finge, não se acha, nem se compra. Simplesmente se ama, ou não.

INÁCIA, você sabe que te amo. Você sabe sem que eu precise pronunciar uma palavra que te amo. É para mim uma filha que nasceu do coração, por isso você é ESPECIAL.

Josué de Lima Pontes
Quatiguá/PR

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