Com
base no acompanhamento de 1 800 pacientes de zero a 67 anos no Ambulatório
de Atendimento à Pessoa com Síndrome de Down do Hospital
de Clínicas da Universidade Federal do Paraná, garanto:
a forma como o médico revela o diagnóstico faz tremenda
diferença.
Impossível?
Não. Tem profissional que ainda hoje chega e diz: "Mãe,
teu filho tem Down, não vai andar, não vai se vestir sozinho,
não vai…" Além de desrespeitosa, a postura
é equivocada. Ninguém tem condições de afirmar
até que ponto progredirá essa criança. Além
disso, tira a esperança da família, desencorajando-a a buscar
tratamento adequado. Resultado: rouba desse filho o direito de desenvolver
toda a sua potencialidade. Um crime.
Receber
a notícia de que o bebê tem deficiência é duro,
sim. É algo que não se espera. Mas o médico pode
ajudar a família a dar um novo significado à vinda desse
filho e a ir à luta. O diagnóstico nunca deve ser transmitido
à mãe na sala de parto, mas sempre em ambiente tranqüilo,
idealmente apenas com o pai ou outro parente junto. É preciso deixá-la
extravasar o sofrimento. Não há script, mas, com
jeito e carinho, é vital abordar os seguintes pontos na primeira
conversa:
Mãe, examinamos seu bebê e ele tem características
especiais. Já percebeu que o narizinho é chato, as orelhas
pequenas, o pescoço gordinho atrás, as sobrancelhas juntinhas,
o corpo mais mole e os olhinhos puxados? O nome disso é síndrome
de Down. Síndrome é conjunto de sintomas. E Down, o nome
do médico que descreveu a síndrome.
Down não é doença, mas um acidente genético
que ocorre sobretudo na fecundação. Ninguém tem culpa.
Em vez de 46 cromossomos em cada célula (23 do pai e 23 da mãe),
a criança com Down possui 47; há um cromossomo 21 a mais,
e isso a distingue das demais. Cromossomo é a unidade que contém
nossas informações genéticas. Síndrome de
Down não é algo que se carrega nas costas como mochila.
Portanto, ela não é portadora mas uma pessoa com Down.
É a principal causa de déficit mental. Em cada 700 nascimentos
ocorre um caso. Por ano, são 10 mil no Brasil. Não há
preferência por sexo, raça, classe social ou região.
Muitas pessoas com Down estudam, namoram, trabalham. Outras têm
mais dificuldades, logo menos autonomia. Essa desigualdade de desenvolvimento
depende de problemas associados e do nível de estimulação,
educação e manutenção da saúde da criança.
Portanto, desde já, precisamos trabalhar juntas: quanto mais investirmos
hoje em seu filho, mais qualidade de vida ele terá no futuro.
Para isso, é muito importante atendimento multiprofissional. Afinal,
ele precisa de fisioterapia e estimulação precoces, nutrição
adequada, apoios fonoaudiológico, psicológico e pedagógico,
além de acompanhamento médico e odontológico.
Toda criança com Down apresenta algum dano no cérebro. Como
não se pode medir a sua extensão, é fundamental aproveitar
cada momento do dia para ensinar e ela aprender. A boa mãe e o
bom pai, além de não se envergonharem de mostrar o filho
ao mundo, mostram o mundo ao filho.
Na área da afetividade, as crianças com Down são
superiores a nós. Ensinam-nos a ser mais carinhosos, perseverantes
e tolerantes. Respeitando a deficiência do outro, aceitamos mais
as nossas próprias. Por tudo isso, profissionais de saúde,
atenção! Podemos fazer a diferença, desmistificando
idéias erradas e estimulando a inclusão. Já às
escolas regulares que aceitam crianças com Down meus aplausos.
Também as crianças ditas normais se beneficiam: aprendem
cedo a aceitar e respeitar o diferente. Pratique inclusão social,
cidadania, tolerância e solidariedade. Quanto a vocês, pai
e mãe, não é porque seu filho é diferente
e tem dificuldades que não será querido e feliz. Arregacem
as mangas. Lutem pelos direitos dele. Vale a pena!
" * Patrícia Tempski Fiedler (36), pediatra,
é médica do Ambulatório de Atendimento da Pessoa
com Síndrome de Down do Hospital de Clínicas da Universidade
Federal do Paraná (UFPR), professora de Embriologia e coordenadora-adjunta
do curso de Medicina da Faculdade Evangélica do Paraná.
|